Por que o gato ronrona? O que a ciência descobriu sobre o ronronar

Por que o gato ronrona e como ele consegue fazer esse som? A ciência ainda não tem a resposta completa. Um estudo publicado em 2023 na revista Current Biology mostrou que a laringe do gato doméstico consegue gerar as frequências graves do ronronar mesmo sem receber um sinal rítmico do sistema nervoso. Isso indica que parte do segredo está na própria anatomia das pregas vocais felinas.

O ronronar ainda é um pequeno mistério da ciência

Para quem convive com gatos, o ronronar é um dos sons mais familiares da casa. Ele aparece no colo, no carinho, na hora de dormir. Mesmo assim, os pesquisadores ainda não sabem tudo sobre a forma como esse som é produzido. Sabem menos ainda sobre tudo o que ele pode significar.

Por isso, vale separar o que já foi demonstrado em pesquisa daquilo que circula como curiosidade sem fonte. Neste texto, ficamos com o que a ciência conseguiu mostrar até agora.

O que o estudo de 2023 descobriu

Quem fez a pesquisa

O trabalho foi liderado pelo cientista da voz Christian T. Herbst, da Universidade de Viena, na Áustria. O artigo, intitulado Domestic cat larynges can produce purring frequencies without neural input (algo como “Laringes de gatos domésticos podem produzir frequências de ronronar sem estímulo neural”), foi publicado na revista Current Biology. O comunicado oficial saiu em 4 de outubro de 2023, segundo a divulgação no EurekAlert!.

Além de Herbst, assinam o estudo Tamara Prigge, Maxime Garcia, Vit Hampala, Riccardo Hofer, Gerald E. Weissengruber, Jan G. Svec e W. Tecumseh Fitch.

Um som produzido sem comando rítmico do cérebro

A laringe é o órgão da garganta onde ficam as pregas vocais, as estruturas que vibram para produzir a voz. Os pesquisadores estudaram a laringe de gatos domésticos em laboratório, de forma controlada.

O resultado chamou atenção. A laringe felina conseguiu produzir sons graves, nas frequências típicas do ronronar, sem nenhum sinal rítmico do sistema nervoso e sem contrações musculares repetidas. Em outras palavras, nas condições do experimento, a própria estrutura da laringe foi capaz de vibrar nessas frequências, sem precisar de um “comando” que marcasse o ritmo a cada batida.

Uma “almofada” escondida nas pregas vocais

Os exames de anatomia trouxeram outra pista. Os cientistas encontraram uma espécie de almofada (em inglês, pad) própria dentro das pregas vocais do gato.

Segundo Herbst, essa estrutura pode explicar um enigma antigo: como um animal de poucos quilos consegue produzir, com frequência, sons tão graves, entre 20 e 30 Hz. Essa faixa fica bem abaixo até dos sons mais graves que a voz humana alcança, conforme relatado pelo ScienceDaily.

Para ter uma ideia, o hertz (Hz) indica quantas vezes algo vibra por segundo. Quanto menor o número, mais grave é o som. Em geral, animais pequenos produzem sons mais agudos. Por isso, um gato emitir um som tão grave é algo que intrigava os pesquisadores, e a almofada nas pregas vocais ajuda a entender esse fenômeno.

O que a “voz crepitante” humana tem a ver com o ronronar

Uma das comparações mais curiosas do estudo envolve a voz humana. Os autores aproximaram o mecanismo do ronronar da chamada voz crepitante, conhecida em inglês como creaky voice ou vocal fry.

É aquele som grave e meio “arranhado” que algumas pessoas produzem ao falar, muitas vezes no fim das frases. Segundo os pesquisadores, os dois mecanismos são muito parecidos. Ou seja, o ronronar pode ter mais em comum com a nossa própria voz do que se imaginava.

O que a ciência ainda não sabe

É importante não exagerar o alcance da descoberta. Segundo os próprios autores, os resultados não derrubam de vez a teoria anterior sobre como o gato ronrona. Eles mostram, porém, que o conhecimento atual está incompleto e que é preciso pesquisar mais.

Também vale lembrar que o estudo foi feito em laboratório e trata de como o som pode ser produzido pela laringe. Ele não investigou por que o gato decide ronronar em cada situação, nem o que o animal sente nesses momentos. Algumas perguntas seguem em aberto:

  • Como esse mecanismo funciona no gato vivo, no dia a dia?
  • Qual é, exatamente, o papel do sistema nervoso no ronronar?
  • O que cada tipo de ronronar comunica ao tutor ou a outros gatos?

Na internet, é comum encontrar afirmações sobre “poderes” ou números do ronronar apresentadas como verdade absoluta. Quando não há uma fonte confiável por trás, o mais prudente é desconfiar e tratar a informação como hipótese, não como fato.

Ronronar significa sempre que o gato está feliz?

Essa é uma das dúvidas mais comuns entre tutores. As pesquisas que servem de base para este texto não estudaram o significado emocional do ronronar. Por isso, não é possível afirmar, a partir delas, que o som indica sempre bem-estar.

Na prática, o caminho mais seguro é enxergar o ronronar como uma informação entre várias. Ele faz mais sentido quando observado junto com o restante do comportamento do gato.

O que observar além do ronronar

  • Postura e expressão: se o corpo está relaxado ou tenso, se o gato está deitado tranquilo ou encolhido.
  • Contexto: se o ronronar acontece durante o carinho e o descanso ou em uma situação diferente do habitual.
  • Rotina: apetite, consumo de água, uso da caixa de areia e disposição para brincar.
  • Mudanças: qualquer alteração no jeito de agir que você não costuma ver no seu gato.

Conhecer bem a rotina do seu gato ajuda a perceber quando algo foge do normal. Essa é a principal ferramenta do tutor.

Quando procurar um médico-veterinário

O ronronar, por si só, não é motivo de preocupação, nem garantia de que está tudo bem com a saúde do gato. O que merece atenção são as mudanças no comportamento e nos hábitos. Procure um médico-veterinário se notar, por exemplo:

  • Perda de apetite ou mudança importante na quantidade de água ingerida.
  • Alterações no uso da caixa de areia.
  • Gato mais quieto, escondido ou apático do que o normal.
  • Dificuldade para respirar ou sons respiratórios diferentes do habitual.
  • Qualquer mudança de comportamento que persista ou cause estranhamento.

Só o profissional pode avaliar o animal e indicar o que fazer. Para gatos que não lidam bem com saídas de casa, uma consulta veterinária domiciliar pode ser uma alternativa para conversar com o médico-veterinário sem tirar o pet do ambiente dele.

Enquanto a ciência continua investigando os mistérios do ronronar, o melhor que o tutor pode fazer é aproveitar esses momentos e observar o gato com atenção e carinho.

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Fontes

Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de um médico-veterinário. Se o seu pet apresentar sintomas ou você tiver dúvidas sobre a saúde dele, procure um profissional.

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